SEARA DA CIÊNCIA

A ORIGEM DA ESPÉCIE HUMANA

SOMOS TODOS AFRICANOS


Hoje praticamente ninguém duvida que nossos antepassados primordiais surgiram na África. Seja você filho de sueco, xavante ou japonês, um seu tata...tataravô nasceu, viveu e morreu no continente africano.

Como sabemos disso?

Há duas linhas mestras de evidência para essa certeza: os fósseis e a genética. Do lado dos paleontólogos, foi observado que em nenhum lugar do mundo foram encontrados fósseis de hominídeos mais antigos que os africanos. Aliás, a variação na idade dos fósseis já encontrados indica o deslocamento do homo desde sua origem na África, passando depois para a Ásia, a Europa, até, finalmente, chegar à América. O mapa simplificado mostrado abaixo ilustra esse caminho ao longo do tempo. Observe que essas evidências mostram que os humanos chegaram às Américas quase que ao mesmo tempo que chegaram à Europa.

Nem todo mundo aceita essa descrição. Há uma outra versão que afirma que nossos antepassados, os hominídeos que ainda não eram "sapiens", sairam da África há cerca de 1,8 milhão de anos e se espalharam pelo mundo. A partir de então, foram evoluindo, evoluindo, e deram origem, em todos esses lugares, a outras espécies, inclusive nós e os neandertais. A hipótese ilustrada no mapa acima, chamada de "Saindo da África", sustenta que o homo sapiens surgiu apenas na África, inicialmente, há cerca de 200.000 anos, e depois saiu de lá e se espalhou pelo mundo. Os outros hominídeos que já habitavam esses lugares fora da África, ou já estavam extintos ou se extinguiram depois que os humanos chegaram, por razões que ainda desconhecemos. Essa explicação, devemos dizer, é a mais aceita hoje em dia pelos cientistas que estudam as origens da humanidade.

Uma linha de pesquisa que favorece a hipótese "Saindo da África" é a genética. Estudos de DNA de várias populações indicam que todos os seres humanos que habitam a Terra hoje são descendentes de gente que surgiu na África. Calcula-se que um pequeno grupo dessas pessoas - talvez menos de 1000 indivíduos - saiu da África há cerca de 50.000 anos e se espalhou pelos outros continentes.

Como é que os geneticistas sabem disso?

Basicamente, eles comparam o DNA das populações em várias partes do mundo. Usam duas linhas de trabalho: uma estuda o DNA do cromossomo Y (masculino) e a outra se concentra no DNA das mitocôndrias. O cromossomo Y é um cromossomo do sexo que só os homens têm. Cada homem tem dois cromossomos do sexo (os "gonossomos"), um X e outro Y. As mulheres têm dois cromossomos X. O cromossomo Y passa de pai para filho na reprodução. Daí, é possível seguir a sequência evolutiva da espécie humana examinando o DNA do cromossomo Y de muitos grupos de homens em todo o planeta. A quantidade de variação no cromossomo Y de um grupo humano dá uma indicação razoável do tempo de formação desse grupo. Quanto mais antigo o grupo, mais variado é o DNA do cromossomo Y das pessoas desse grupo. Com essa lógica, o DNA dos índios da América deve ter bem menos variações que o DNA dos europeus, por exemplo. E o DNA dos europeus deve ser menos variado que o DNA dos africanos. E é isso mesmo o que se observa, como ilustra o gráfico abaixo.

A outra técnica genética para traçar a trajetória dos humanos desde sua origem usa o DNA das mitocôndrias. (Para saber sobre as mitocôncrias, leia a Apostila de Dona Fifi sobre esse fascinante tema.) Esse DNA é próprio da organela e é diferente do DNA nuclear. Como tem poucos nucleotídeos, é mais fácil de rastrear. Além disso, é um DNA que passa somente de mãe para filha. Corroborando o que se aprendeu com o cromossomo Y, verificou-se que o DNA mitocondrial de todas as mulheres desse planeta vem de uma raiz comum, uma "Eva mitocondrial" que viveu na África há uns 150.000 anos. Infelizmente, não temos nenhum retrato dessa Eva para que vocês, mocinhas modernas, peçam a bênção.

Nesse ponto de nosso relato é bom ressaltar que Charles Darwin, em seu livro "Descent of Man" (que poderia muito bem ser "Descent of Woman"), já tinha sugerido que os humanos deveriam ter surgido na África. O argumento usado por ele baseava-se no fato de que é no continente africano onde moram, ainda hoje, nossos parentes mais próximos, os chimpanzés. Os europeus relutaram durante muito tempo a aceitar essa idéia de que os seres humanos teriam surgido em algum outro lugar que não a sagrada Europa. No início do século 20, foram apresentados na Inglaterra restos de um hipotético antepassado do homem, meio gente e meio macaco, achados em Piltdown. Infelizmente para esses orgulhosos "cientistas", logo foi visto que esse achado era uma fraude grosseira e o sonho britânico de ser o local de origem da humanidade dissolveu-se no ridículo.

A seguir, vamos falar de descobertas mais sérias de fósseis com milhões de anos que contam uma história muito mais fundamentada de nossas origenas.


Lucy e outros hominídeos.

Nosso primo o Neandertal.

Os ossos do ofício.